Vânia Leal: Inteligência Coletiva

Num panorama em que a gestão das empresas caminha para uma liderança horizontal, principalmente nas pequenas e médias empresas, estando inseridas numa sociedade em que se exige das organizações respostas rápidas e eficazes, o conceito de inteligência coletiva tende a ganhar mais espaço, na medida em que surge a necessidade de uma maior compartilha e cooperação entre os indivíduos para o sucesso da organização. 

Durante a pandemia emergiu a necessidade de novos procedimentos, adequados a esta realidade, e muitas dúvidas e medos se instalaram, foi o momento certo para mostrar que o assistente dentário pode ter um papel mais ativo na organização, deixando de ser apenas o “ajudante do dentista” e passando a partilhar as suas opiniões e competências com a restante equipa, principalmente, quando a maior parte dos assistentes possuem vastos conhecimentos na área, adquiridos através de formações.

A inteligência coletiva é definida por Pierre Lévy como “uma inteligência distribuída por toda a parte”, em que todos sabemos algo e podemos contribuir com as diferentes competências e conhecimentos para o produto final que a clínica pretende atingir, sendo, neste caso, uma eficaz prestação de cuidados de saúde oral com diminuição do risco de contaminação. Para este fim, dentro da equipa, todos devem estar dispostos a pensar, aprender e criar coletivamente.

A implementação da inteligência coletiva assenta em três grandes pilares:

  • Estruturação específica das interações;
  • Espaço adequado ao pensamento;
  • Dinâmica em três tempos: elaboração coletiva, o tempo da decisão e o trabalho colaborativo.

Para que estes pilares sejam bem consolidados é necessário que:

  • Todos os elementos possam exprimir-se sem receio de serem ajuizados, deixando de lado divergências pessoais entre os diferentes elementos da equipa;
  • Haja abertura para que seja possível discordar publicamente, sem desrespeitar a opinião dos outros;
  • Os elementos da equipa tenham autonomia dentro das suas funções;
  • Exista uma relação de proximidade, através da promoção da coesão dentro da equipa, tal como a criação de momentos de lazer que são partilhados por todos, como por exemplo um jantar de empresa;
  • Haja um agendamento de reuniões de equipa, onde sejam partilhados os problemas, conquistas e objetivos a atingir, sendo um espaço dedicado ao diálogo e tomada de decisões;
  • A informação chegue a todos os elementos da equipa de igual forma, sem quebras durante a sua transmissão;
  • As decisões finais devam seguir um consenso, evitando desta forma o “eu mando, eu decido”;
  • Valorize-se cada individuo e o trabalho que surge da colaboração entre toda a equipa.
  • O líder da equipa escute ativamente os seus colaboradores.

Um dos grandes entraves ao sucesso da implementação da inteligência coletiva consiste no facto de que alguns colaboradores, hierarquicamente superiores, não aceitarem o não exercer o poder associado à sua posição, além de que, infelizmente, alguns diretores clínicos consideram que o assistente não é capaz de ter uma posição crítica acerca da gestão da clínica, em parte culpa dos assistentes que por diversas ocasiões preferem a passividade ao invés de fazerem valer as suas opiniões e competências.

Com a pandemia, por estarmos todos um pouco à deriva, talvez tenha aberto uma janela para a valorização das ideias e do papel do assistente como promotor do sucesso da clinica, pois tal como diz o provérbio africano “Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo”.

Vânia Leal
Formadora de TAD